30.06.2016

Uma garota e seu quarto

Eu sei que não devo ser a única a me identificar com esse projeto maravilhoso de Rania Matar, intitulado A Girl and Her Room, mas quem melhor que eu mesma pra entender minhas próprias loucuras e meus sonhos acordados dentro do meu quarto? Este é o melhor lugar do mundo, com certeza. O lugar que abriga todas as minhas imperfeições e testemunha todos os meus risos e choros. Todas as paredes que me envolvem já ouviram de tudo, gritos e sussurros. Todos os meus objetos testemunham minhas fraquezas e, principalmente, minhas forças. É aqui que todas as minhas ideias surgem e me pergunto coisas que só este projeto pode ser capaz de responder.  :ribbon:

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“Eu encontrei uma caixa em formato de coração cheia de cartas de amor, no topo do armário da minha avó. Meu avô escreveu para ela todos os dias de junho de 1938. Eram cartas e eram reais e escritas à mão e preservadas e encontradas de novo. É um vestígio de amor tangível. Amor assim parece não existir mais. Eu me pergunto às vezes que restos meus netos vão encontrar dos meus casos de amor. Mensagens de texto? Emails? A tecnologia parece admirar a individualidade e limitar a história. Nada é precioso o bastante.” – Ellice 20, Jamaica Plain 2010

“Este é um projeto sobre garotas adolescentes e jovens moças em um momento de transição das suas vidas, sozinhas na privacidade de seu próprio espaço pessoal e arredores: seu quarto, um útero dentro do mundo exterior.”

Depois do projeto lindo The Atlas of Beauty que já postei aqui no blog, esse é outro projeto que me dá arrepios. Ao contrário do anterior, algumas garotas dão seu depoimento e propõem questionamentos. Tudo começou quando Rania Matar, uma fotógrafa libanesa, se inspirou em sua própria filha adolescente para iniciar este projeto. Ela já fotografou mais de 300 garotas nos Estados Unidos, Líbano, alguns países europeus e territórios palestinos. O projeto se iniciou em 2009 na cidade de Boston, onde Rania mora. Esse projeto ganhou bastante notoriedade e até virou livro. Neste link, ela dá uma pequena entrevista sobre como isso aconteceu (disponível apenas em inglês, mimimi).

Rania quis iniciar o projeto fotografando garotas em grupo, mas percebeu que elas se sentiam mais à vontade em seus próprios espaços privados. Seu maior objetivo é retratar a transformação da personalidade de uma pessoa que está na borda entre dois mundos: o do adulto e o da criança. O início das inseguranças e o fim da ingenuidade.

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Ela também possui outros trabalhos relacionados com questões femininas, como o livro Ordinary Lives (que mostra mulheres e crianças no Líbano, e em campos de refugiados palestinos), efaz parte de um livro chamado She Who Tells A Story, que mostra o trabalho de 12 fotógrafas árabes. Outro projeto interessante que ela tem é L’Enfant Femme, onde ela mostra garotas que possuem um lado adulto quando estão diante da câmera.

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“Minha vida tem sido complicada. Meus pais se divorciaram quando eu tinha 2 anos. Eu morei com meu pai em Las Vegas até meus 14 anos, rodeada de strippers e namoradas. Meu pai era alcóolico e minha mãe teve problemas com drogas e foi presa. Esse tempo todo eu nunca pensei realmente em escrever uma boa redação pra escola ou mesmo ler. Eu não sei exatamente o quê escrever sobre mim que mostre minha imagem; é muito difícil isso.” – Krystal 17, Boston 2009

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“Quando eu estava pensando sobre minha foto a ser tirada, passou pela minha cabeça que as modelos da parede do meu quarto são as pessoas que eu admiro e tento ser iguais à elas, conscientemente ou não. E então eu comecei a me perguntar por quê e como a gente define beleza. O quê é beleza? E onde eu estou na escala da beleza em relação às fotos da parede? Será que sou boa o bastante?” – Siena 17, Brookline MA, 2009

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“Eu moro em um campo de refugiados palestino. A vida é ok, exceto que os muros bloqueiam nossas vidas. Eu sou muçulmana. Eu não quero usar o véu. Minha mãe gostaria que sim. Ela se preocupa com o quê as pessoas vão falar. Para mim, a relação que eu tenho com Deus é própria.” – Bisan 16, Bethlehem West Bank 2009

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“No colegial, muitos dos meus problemas são garotos, festas e tentar fazer coisas escondidas dos meus pais para ser ‘divertido’. Tem todas essas coisas novas acontecendo pela primeira vez com você que você quer tentar, e mesmo quando você sabe que não devia, é aí que você quer mais. Esse é um sentimento estranho de rebeldia que eu quase não posso controlar.” – Maddie-Chloe 16, Cornwall NY 2010

“Eu amo meu quarto! Tem sido difícil ser adolescente no Líbano porque eu gosto de ir pras festas e me divertir, mas as pessoas ficam me julgando injustamente me chamando de vadia por eu ir às festas, ficar acordada até tarde e vestir mini-saias. Eu me acostumei com isso e só tem me tornado uma pessoa mais forte, assim eu posso ser do jeito que eu sou: louca, hiperativa e sempre pronta pra mais.” – Christilla 19, Rabieh Líbano 2010

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“Eu parei de ir pra escola na 7ª série. Então eu fui para uma escola técnica onde aprendi a ser cabeleireira, mas eu não quero trabalhar. Eu ajudo minha mãe em casa, e quando eu termino, eu assisto TV e tomo Nescafé. Eu estou noiva e vou me casar ano que vem. Eu não o amo. Ele pediu a minha mão e eu disse sim. Eu vou aprender a amá-lo. Ele é bom comigo. Eu vou usar o véu quando me casar.” – Hiba 16, Bourj El Barajneh Refugee Camp, Beirute

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“Eu sou da Costa do Marfin, sou libanesa, e estudo em Londres. Eu estudo sobre a moda feminina, não sei porquê eu me sinto envergonhada de escrever ou falar sobre isso. Meu sonho na verdade é ensinar arte, aprender arte, viver disso. Eu nunca me apaixonei por alguém que também estivesse apaixonado por mim, apenas por pessoas que nunca souberam o que eu sentia. Nude é minha cor favorita. Eu gosto de pensar e de escrever. Eu gostaria de gravar meus pensamentos como se fossem vozes de verdade, ou filmar cenas que eu crio na minha cabeça. (…) Minha mente não para de falar. Eu passo por pessoas diferentes todos os dias. (…) estou sempre interessada em aprender sobre as pessoas.” – Reem 19, Doha Líbano 2010

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“Eu tenho 17 anos e estou grávida de um menino. Meus pais ficaram muito chateados no começo, mas agora eles estão me apoiando. Minha mãe tem um momento difícil quando toca na minha barriga. Meu namorado e eu terminamos e eu não quero que ele faça parte da vida do meu bebê. Agora, tenho um novo namorado que vai amar meu filho.” – Rocio 17, Dorcester 2010

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“Meus pais não podem me mandar pra escola, então eu estudo sozinha em casa para poder me formar no colegial, embora eu queira mesmo ir pra escola. Eu já fui noiva uma vez, mas eu não o amava. Eu queria ter tornado as coisas mais fáceis para meus pais.” – Elham 18, Shatila Refugee Camp, Beirute 2009

Será que você consegue se identificar com alguma(s) dessas meninas, mesmo elas vivendo realidades tão diferentes? Aparentemente, nossas realidades parecem muito mais próximas quando elas dizem o que sentem… Eu me sinto mais próximas delas de certa maneira.

Para quem tem aquele inglês afiado e estiver ainda mais interessada em saber sobre todos os seus projetos, tem alguns vídeos disponíveis:
• Rania Matar – A Girl and Her Room
• Becoming: Girls Women and Coming of Age
• Telling Women’s Stories

Fontes: BBC Brasil / Visura / BrainPickings / MarthaGarzon / Telegraph

Categorias: Arte